Reflexão n°.1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.
O menino sem passado
Monstros complicados
não povoaram meus sonos de criança
porque o saci-pererê não fazia mal a ninguém
limitando-se moleque a dançar maxixes desenfreados
no mundo das garotas de madeira
que meu tio habilidoso fazia para mim.
A mãe-d’água só se preocupava
em tomar banhos asseadíssima
na piscina do sítio que não tinha chuveiro.
De noite eu ia no fundo do quintal
pra ver se aparecia um gigante com trezentos anos
que ia me levar dentro dum surrão,
mas não acreditava nada.
Fiquei sem tradição sem costumes nem lendas
estou diante do mundo
deitado na rede mole
que todos os países embalançam.
Amantes
Os dois amantes sentados num banco
Já se cansaram, nem se olham mais,
Esgotando os beijos e os abraços.
Pensaram um dia que o carinho fosse eterno:
Estão ligados somente pela falta de assunto
E pelo murmúrio das ondas
A luz da tarde é febril
E triste o final do amor.
(Amantes, Murilo Mendes)
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Palavras de Murilo Mendes
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Palavras de Nuno Judice
Ausência
O fundamento das palavras perde-se
na lava dos lábios, quando o fogo do amor
os incendeia. Rios que se enrolam
nos ombros da madrugada, ou simples
regatos que correm por entre os dedos -
vêm ao encontro dos amantes,
para que os seus olhos cansados da noite
os sigam na planície da pele,
em busca de um estuário de sensações.
Porém, as flores presas no cabelo,
sugerindo um movimento de hera, dão-te
uma hesitação de outono, como se o tempo
te cobrisse com a sua sombra. Só o que pensas
te empresta uma realidade - mas não sei o que
pensas. E se o diadema do dia te ilumina
o rosto, e os teus olhos encontram os meus,
espero que me respondas: A que armário
de esquecimento foste buscar o teu silêncio?
Nuno Judice
Enigma
Procurei um graal que pudesse pousar nos teus ombros,
para o encher com o filtro que embriaga os deuses
famintos de amor. Mas tu soltaste os cabelos
e escondeste-me o teu corpo, para que eu entrasse
na sua floresta em busca de uma clareira. Perdi-me
por entre as folhas e flores de uma vegetação de
murmúrios; e quando ouvi um canto de pássaros
anunciarem a madrugada, já não precisei de
nenhum graal para descobrir o teu segredo
Nuno Júdice
O amor
Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.
Nuno Júdice
Lamento de Orfeu
Quero chegar à ideia, tocar o seu corpo
abstracto, e sentir na sua pele as palavras que compõem
a frase musical do espírito. Para isso, o meu olhar
procura o campo das sensações, percorre-o com
a lâmina acerada da sua luz, e recorta de entre
o magma dos sentimentos a figura exacta
do amor. Tenho de encontrar a pura expressão
do som, o mais alto acorde de entre os que envolvem
a sua voz, e pedir aos deuses que me emprestem
um vocabulário de nuvens, para que a sua névoa
desça ao fundo dos meus olhos, e obscureça
a linha da razão. A cegueira da alma restituir-me-á
a visão que só os dedos pressentem, quando
te encontram; e voltarei a ver, por entre
as sombras, o rosto amado.
Nuno Júdice
O fundamento das palavras perde-se
na lava dos lábios, quando o fogo do amor
os incendeia. Rios que se enrolam
nos ombros da madrugada, ou simples
regatos que correm por entre os dedos -
vêm ao encontro dos amantes,
para que os seus olhos cansados da noite
os sigam na planície da pele,
em busca de um estuário de sensações.
Porém, as flores presas no cabelo,
sugerindo um movimento de hera, dão-te
uma hesitação de outono, como se o tempo
te cobrisse com a sua sombra. Só o que pensas
te empresta uma realidade - mas não sei o que
pensas. E se o diadema do dia te ilumina
o rosto, e os teus olhos encontram os meus,
espero que me respondas: A que armário
de esquecimento foste buscar o teu silêncio?
Nuno Judice
Enigma
Procurei um graal que pudesse pousar nos teus ombros,
para o encher com o filtro que embriaga os deuses
famintos de amor. Mas tu soltaste os cabelos
e escondeste-me o teu corpo, para que eu entrasse
na sua floresta em busca de uma clareira. Perdi-me
por entre as folhas e flores de uma vegetação de
murmúrios; e quando ouvi um canto de pássaros
anunciarem a madrugada, já não precisei de
nenhum graal para descobrir o teu segredo
Nuno Júdice
O amor
Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.
Nuno Júdice
Lamento de Orfeu
Quero chegar à ideia, tocar o seu corpo
abstracto, e sentir na sua pele as palavras que compõem
a frase musical do espírito. Para isso, o meu olhar
procura o campo das sensações, percorre-o com
a lâmina acerada da sua luz, e recorta de entre
o magma dos sentimentos a figura exacta
do amor. Tenho de encontrar a pura expressão
do som, o mais alto acorde de entre os que envolvem
a sua voz, e pedir aos deuses que me emprestem
um vocabulário de nuvens, para que a sua névoa
desça ao fundo dos meus olhos, e obscureça
a linha da razão. A cegueira da alma restituir-me-á
a visão que só os dedos pressentem, quando
te encontram; e voltarei a ver, por entre
as sombras, o rosto amado.
Nuno Júdice
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Palavras de Antonio Ramos Rosa
Um mundo
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.
António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 67
Escrevo-te com o fogo e a água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
António Ramos Rosa Volante Verde - 1986 in Antologia Poética
Quem escreve
Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.
António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 66
O horizonte das palavras
Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.
António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.
António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 67
Escrevo-te com o fogo e a água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
António Ramos Rosa Volante Verde - 1986 in Antologia Poética
Quem escreve
Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.
António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 66
O horizonte das palavras
Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.
António Ramos Rosa
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Palavras de Rubem Alves
O poema é a voz do inconsciente.(...) Pode ser que a cabeça não entenda, mas o inconsciente entende. porque é a lógica dos sonhos.
E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.
Amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera.
O Amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário
Por que rimos e choramos por aquilo que é fantasia? A Alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem.
O encantamento não está no que se vê. Está no que se imagina.
É maravilhoso esse poder que tem os livros para criar pontes entre pessoas que se amam sem se conhecer.
E percebo que tristeza é isso: estar diante de um espaço onde um dia houve o encontro.
Não basta silêncio de fora. É preciso silêncio de dentro. Ausência de pensamentos. E aí (...) a gente começa a ouvir coisa que não ouvia.
A alma dos poetas está cheia de objetos decrépitos.É é por isso que fazem poesia, para trazê-los de novo à vida.
Toda pérola esconde uma dor no fundo da sua beleza.
Para se escrever sobre a paixão é preciso estar na praia. É só da praia que se pode contemplar o oceano.
Eu mesmo, sempre que um meteoro ilumina os céus (coisa efêmera...), não posso evitar o aparecimento de meu desejo mais profundo.
Talvez seja por isso que os navegadores navegam: porque no perigo e no abismo eles vêem refletida a eternidade.
Sempre fui levado por uma força mais forte que a minha razão à praias com que nunca havia sonhado.Foi assim que me tornei escritor...
O mar de Minas não é o mar. O mar de Minas é no céu, pro mundo olhar pra cima e navegar sem nunca ter um porto onde chegar.
Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.
A música clássica dá alegria.Há músicas que dão prazer.Mas a alegria é muito mais que prazer .
Quem ouve as estrelas fica tranquilo.
E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.
Amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera.
O Amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário
Por que rimos e choramos por aquilo que é fantasia? A Alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem.
O encantamento não está no que se vê. Está no que se imagina.
É maravilhoso esse poder que tem os livros para criar pontes entre pessoas que se amam sem se conhecer.
E percebo que tristeza é isso: estar diante de um espaço onde um dia houve o encontro.
Não basta silêncio de fora. É preciso silêncio de dentro. Ausência de pensamentos. E aí (...) a gente começa a ouvir coisa que não ouvia.
A alma dos poetas está cheia de objetos decrépitos.É é por isso que fazem poesia, para trazê-los de novo à vida.
Toda pérola esconde uma dor no fundo da sua beleza.
Para se escrever sobre a paixão é preciso estar na praia. É só da praia que se pode contemplar o oceano.
Eu mesmo, sempre que um meteoro ilumina os céus (coisa efêmera...), não posso evitar o aparecimento de meu desejo mais profundo.
Talvez seja por isso que os navegadores navegam: porque no perigo e no abismo eles vêem refletida a eternidade.
Sempre fui levado por uma força mais forte que a minha razão à praias com que nunca havia sonhado.Foi assim que me tornei escritor...
O mar de Minas não é o mar. O mar de Minas é no céu, pro mundo olhar pra cima e navegar sem nunca ter um porto onde chegar.
Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.
A música clássica dá alegria.Há músicas que dão prazer.Mas a alegria é muito mais que prazer .
Quem ouve as estrelas fica tranquilo.
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«Hoje estou bêbado de universo» (Giuseppe Ungaretti)
«Acho que sábado é a rosa da semana.» (Clarice Lispector)
«Fazer o poema / é estar em conflito / com o sangue que corre nas veias do mito.» (Francisco Carvalho)
«Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho» (Murilo Mendes) *
«A poesia não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador.» (Octavio Paz) *
«O nome de uma mulher me delata. / Me dói uma mulher em todo o corpo.» (Jorge Luis Borges) *
«Eu sou o meu próprio escândalo contínuo.» (Murilo Mendes)
«Fique este dia e esta noite comigo e você vai possuir a origem de todos os poemas» (Walt Whitman) *
«Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.» (Carlos Drummond de Andrade) *
«Sou poesia. Não sei me traduzir...» (Dante Milano) *
Uma palavra / basta / para acordar os /demônios / que se hospedam / no poema.» (Francisco Carvalho) *
«Ser livre / é com freqüência estar sozinho.» (W.H. Auden)
«Só na morte não somos estrangeiros.» (Eugénio de Andrade)
«As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.» (António Ramos Rosa)
«Os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos.» (Mario Quintana)
«Acho que sábado é a rosa da semana.» (Clarice Lispector)
«Fazer o poema / é estar em conflito / com o sangue que corre nas veias do mito.» (Francisco Carvalho)
«Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho» (Murilo Mendes) *
«A poesia não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador.» (Octavio Paz) *
«O nome de uma mulher me delata. / Me dói uma mulher em todo o corpo.» (Jorge Luis Borges) *
«Eu sou o meu próprio escândalo contínuo.» (Murilo Mendes)
«Fique este dia e esta noite comigo e você vai possuir a origem de todos os poemas» (Walt Whitman) *
«Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.» (Carlos Drummond de Andrade) *
«Sou poesia. Não sei me traduzir...» (Dante Milano) *
Uma palavra / basta / para acordar os /demônios / que se hospedam / no poema.» (Francisco Carvalho) *
«Ser livre / é com freqüência estar sozinho.» (W.H. Auden)
«Só na morte não somos estrangeiros.» (Eugénio de Andrade)
«As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.» (António Ramos Rosa)
«Os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos.» (Mario Quintana)
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Poética
Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
.... Entrai, irmãos meus!
Vinícius de Moraes
Definição de poesia - Boris Pasternak
"Um risco maduro de assobio. O trincar do gelo comprimido. A noite, a folha sob o granizo. Rouxinóis num dueto desafio. Um doce ervilhal abandonado A dor do universo numa fava. Fígaro: das estantes e flautas - Geada no canteiro, tombado. Tudo o que para a noite releva Nas funduras da casa de banho, Trazer para o jardim uma estrela Nas palmas úmidas, tiritando. Mormaço: como pranchas na água, Mais raso. Céu de bétulas, turvo. Se dirá que as estrelas gargalham, E no entanto o universo está surdo."
A CANÇÃO MAIS RECENTE
O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eterna-
mente matutina.
Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Além disso o amanhã
nunca deixará de ter pássa-
ros.
Cassiano Ricardo
«Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.» (Vladímir Maiakóvski)
As palavras errantes
As palavras não são imóveis como os pilares que
sustentam as pontes estáticas
ou os arranha-céus que acendem as suas luzes na manhã
vertiginosa.
Elas caminham como os ciganos em busca da pátria
nenhuma escondida em todas as pátrias.
Armam suas barracas à beira da estrada mas logo partem
e avançam na escuridão do mundo como os sonâmbulos
ou saltam como os grilos na grama ainda úmida de
orvalho.
Sempre mudam de lugar como os ataúdes nas lojas
funerárias.
Nenhum prego fixa uma palavra na página aberta
na desolação do dia.
Ela pousa no papel como uma borboleta e em seguida voa
e procura um jardim. As palavras são pássaros migratórios
que nos incitam a partir para as montanhas.
São estrelas errantes. São navios.
E eu sou uma palavra: estou sempre andando
no mundo que é caminho.
Ledo Ivo
Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
.... Entrai, irmãos meus!
Vinícius de Moraes
Definição de poesia - Boris Pasternak
"Um risco maduro de assobio. O trincar do gelo comprimido. A noite, a folha sob o granizo. Rouxinóis num dueto desafio. Um doce ervilhal abandonado A dor do universo numa fava. Fígaro: das estantes e flautas - Geada no canteiro, tombado. Tudo o que para a noite releva Nas funduras da casa de banho, Trazer para o jardim uma estrela Nas palmas úmidas, tiritando. Mormaço: como pranchas na água, Mais raso. Céu de bétulas, turvo. Se dirá que as estrelas gargalham, E no entanto o universo está surdo."
A CANÇÃO MAIS RECENTE
O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eterna-
mente matutina.
Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Além disso o amanhã
nunca deixará de ter pássa-
ros.
Cassiano Ricardo
«Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.» (Vladímir Maiakóvski)
As palavras errantes
As palavras não são imóveis como os pilares que
sustentam as pontes estáticas
ou os arranha-céus que acendem as suas luzes na manhã
vertiginosa.
Elas caminham como os ciganos em busca da pátria
nenhuma escondida em todas as pátrias.
Armam suas barracas à beira da estrada mas logo partem
e avançam na escuridão do mundo como os sonâmbulos
ou saltam como os grilos na grama ainda úmida de
orvalho.
Sempre mudam de lugar como os ataúdes nas lojas
funerárias.
Nenhum prego fixa uma palavra na página aberta
na desolação do dia.
Ela pousa no papel como uma borboleta e em seguida voa
e procura um jardim. As palavras são pássaros migratórios
que nos incitam a partir para as montanhas.
São estrelas errantes. São navios.
E eu sou uma palavra: estou sempre andando
no mundo que é caminho.
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Palavras de Graciliano Ramos
Graciliano Ramos sobre a arte de escrever
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
Graciliano Ramos
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
Graciliano Ramos
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Palavras de Cecília Meireles
Vôo
Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.
Cecília Meireles
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Cecília Meireles
Numa noite de lua escreverei palavras
Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com as asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.
O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascera de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados
livre de pálpebras, e num país sem muros.
Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah,quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível
Cecília Meireles
Canção da Alta Noite
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
andar por andar - somente.
Não necessita de nada.
Cecília Meireles
Timidez
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos nocturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
ate' não se sabe quando...
- e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
Uma pequena aldeia
No canto do galo há uma pequena aldeia
de mulheres risonhas e pobres
que trabalham em casas de pedra
com belos braços brancos
e olhos cor de lágrima
São umas corajosas mulheres
que tecem em teares antigos,
são Penélopes obscuras
em suas casas de pedra
com fogões de pedra
nestes tempos de pedra.
Elas, porém, cantam com frescura,
a leveza, a graça, a alegria generosa
da água das cascatas,
que corre de dentro do mundo
pelo mundo
para fora do mundo.
No canto do galo há, de repente,
essa pequena aldeia,
com essas belas mulheres,
essas boas mulheres escondidas,
essas criaturas lendárias
que trabalham e cantam
e morrem.
O amor é uma roseira à sua porta,
o sonho é um barco no mar
a vida é uma brasa na lareira
um pano que nasce, fio a fio.
A morte é um dia santo
para sempre no céu.
Cecília Meireles
Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.
Cecília Meireles
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Cecília Meireles
Numa noite de lua escreverei palavras
Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com as asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.
O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascera de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados
livre de pálpebras, e num país sem muros.
Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah,quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível
Cecília Meireles
Canção da Alta Noite
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
andar por andar - somente.
Não necessita de nada.
Cecília Meireles
Timidez
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos nocturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
ate' não se sabe quando...
- e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
Uma pequena aldeia
No canto do galo há uma pequena aldeia
de mulheres risonhas e pobres
que trabalham em casas de pedra
com belos braços brancos
e olhos cor de lágrima
São umas corajosas mulheres
que tecem em teares antigos,
são Penélopes obscuras
em suas casas de pedra
com fogões de pedra
nestes tempos de pedra.
Elas, porém, cantam com frescura,
a leveza, a graça, a alegria generosa
da água das cascatas,
que corre de dentro do mundo
pelo mundo
para fora do mundo.
No canto do galo há, de repente,
essa pequena aldeia,
com essas belas mulheres,
essas boas mulheres escondidas,
essas criaturas lendárias
que trabalham e cantam
e morrem.
O amor é uma roseira à sua porta,
o sonho é um barco no mar
a vida é uma brasa na lareira
um pano que nasce, fio a fio.
A morte é um dia santo
para sempre no céu.
Cecília Meireles
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Procura da poesia
Procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?
Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.)
Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?
Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.)
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Palavras de Manoel de Barros
"É pelo beijo que o amor se edifica. É no calor da boca que o alarme de carne grita."
"Se comunica por encantamentos. E por não ser contaminada de contradições, a linguagem dos pássaros só produz gorjeios."
"A hera veste meus princípios e meus óculos."
"A primavera está por um trevo!"
"A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos."
"Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. As palavras continuam com os seus deslimites."
"Tem mais presença em mim o que me falta."
"Falar a partir de ninguém. Ensina a ver o sexo das nuvens. E ensina o sentido sonoro das palavras."
"Tenho uma confisão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira."
"Toda frase que se faz é preciso gozar nela. E é preciso fazer o serviço com paciência para que o gozo dê frutos."
"Ontem choveu no futuro."
"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."
"Sou hoje um caçador de achadouros da infância."
"Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão."
"Eu sou meu estandarte pessoal. Preciso do desperdício das palavras para conter-me."
"A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem. Nos encantos de um sabiá."
"E agora que fazer com esta manhã desabrochada a pássaros?"
"Estou sem eternidades."
"Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres."
"Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde."
"Nas brisas vem sempre um silêncio de garças."
"Escutei um perfume de sol nas águas."
"É no ínfimo que vejo a exuberância."
"Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou."
"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."
"Sou formado em desencontros."
"O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas."
"Os delírios verbais me terapeutam."
"Palavras que me aceitam como sou, eu não aceito."
"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."
"Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam. Tem hora leio avencas. Tem hora, Proust. Ouço aves e beethovens."
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras."
"Se comunica por encantamentos. E por não ser contaminada de contradições, a linguagem dos pássaros só produz gorjeios."
"A hera veste meus princípios e meus óculos."
"A primavera está por um trevo!"
"A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos."
"Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. As palavras continuam com os seus deslimites."
"Tem mais presença em mim o que me falta."
"Falar a partir de ninguém. Ensina a ver o sexo das nuvens. E ensina o sentido sonoro das palavras."
"Tenho uma confisão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira."
"Toda frase que se faz é preciso gozar nela. E é preciso fazer o serviço com paciência para que o gozo dê frutos."
"Ontem choveu no futuro."
"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."
"Sou hoje um caçador de achadouros da infância."
"Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão."
"Eu sou meu estandarte pessoal. Preciso do desperdício das palavras para conter-me."
"A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem. Nos encantos de um sabiá."
"E agora que fazer com esta manhã desabrochada a pássaros?"
"Estou sem eternidades."
"Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres."
"Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde."
"Nas brisas vem sempre um silêncio de garças."
"Escutei um perfume de sol nas águas."
"É no ínfimo que vejo a exuberância."
"Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou."
"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."
"Sou formado em desencontros."
"O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas."
"Os delírios verbais me terapeutam."
"Palavras que me aceitam como sou, eu não aceito."
"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."
"Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam. Tem hora leio avencas. Tem hora, Proust. Ouço aves e beethovens."
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras."
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Palavras de amor
O Verbo No Infinito
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinícius de Moraes
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dois corpos
Dois corpos face a face
São ás vezes duas ondas
E a noite é um oceano.
Dois corpos face a face
São ás vezes duas pedras
E a noite um deserto.
Dois corpos face a face
São ás vezes qual raízes
Dentro da noite enlaçadas.
Dois corpos face a face
São ás vezes qual navalhas
E a noite um relâmpago.
Dois corpos face a face
São dois astros caindo
Num céu que está vazio.
Octávio Paz
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andrese
Se tanto me dói que as coisas passem…
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Canção da falsa adormecida
Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft
Amor e Seu Tempo
Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.
Carlos Drummond de Andrade
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinícius de Moraes
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dois corpos
Dois corpos face a face
São ás vezes duas ondas
E a noite é um oceano.
Dois corpos face a face
São ás vezes duas pedras
E a noite um deserto.
Dois corpos face a face
São ás vezes qual raízes
Dentro da noite enlaçadas.
Dois corpos face a face
São ás vezes qual navalhas
E a noite um relâmpago.
Dois corpos face a face
São dois astros caindo
Num céu que está vazio.
Octávio Paz
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andrese
Se tanto me dói que as coisas passem…
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Canção da falsa adormecida
Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft
Amor e Seu Tempo
Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.
Carlos Drummond de Andrade
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
Palavras de Pedro D'Arcádia Netto
Aurora
Nasce em mim
essa aurora para te amar
longamente
- uma aurora sempre jovem
que o dia não vencerá,
nem a noite,
Orvalho, sol e noite,
amalgamados, sempre aurora,
na glória tão grande de te amar!
Pedro D'Arcádia Netto
Razão
Amo as pessoas
precisamente porque elas findam.
Não pelo inferno
nem pelo paraíso:
amo as pessoas
precisamente porque elas findam.
Pedro D'Arcádia Netto
"... a vida é um
sopro divino
temporariamente
esquecido na terra."
Pedro D'Arcádia Netto
História da árvore em agosto
Vê como em agosto
são tenros os brotos amarelados
e como eles tecem a árvore.
Vê como o brando leque
dos galhos deita-se no ar,
com toda a confiança.
Vê:
Com todo o conflito de seus ramos,
ela é perfeita
e linda
e eterna
contra o céu de agosto.
Vê, amigo
Vê como ela é eterna.
Pedro D'Arcádia Netto
Nasce em mim
essa aurora para te amar
longamente
- uma aurora sempre jovem
que o dia não vencerá,
nem a noite,
Orvalho, sol e noite,
amalgamados, sempre aurora,
na glória tão grande de te amar!
Pedro D'Arcádia Netto
Razão
Amo as pessoas
precisamente porque elas findam.
Não pelo inferno
nem pelo paraíso:
amo as pessoas
precisamente porque elas findam.
Pedro D'Arcádia Netto
"... a vida é um
sopro divino
temporariamente
esquecido na terra."
Pedro D'Arcádia Netto
História da árvore em agosto
Vê como em agosto
são tenros os brotos amarelados
e como eles tecem a árvore.
Vê como o brando leque
dos galhos deita-se no ar,
com toda a confiança.
Vê:
Com todo o conflito de seus ramos,
ela é perfeita
e linda
e eterna
contra o céu de agosto.
Vê, amigo
Vê como ela é eterna.
Pedro D'Arcádia Netto
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Palavras de Mário Faustino
VIDA TODA LINGUAGEM
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem --
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
E deus talvez, e nada
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-
[tra a chuva,
tenta fazê-la enterna - com se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
PRIMEIRO POEMA
Por que vos espantais se eu venho sobre as ondas?
Trago a paz e as distâncias vêm comigo
na boca tenho mundos e nos olhos palavras.
Ouvi-me.
Todas as coisas são palavras minhas:
a mais pura das nuvens
a mais pura que veio de longe e não se dissolveu
as colunas incolores além se levantando
quebradas luminosas líquidas colunas colunas
os cavalos que se empinam sobre a espuma
e o calmo silêncio povoando o mar.
Minhas palavras.
Antigas porém há pouco descobertas.
Lentas como o escurecer das nuvens refletidas
como o tremular tranqüilo da vaga adolescente.
Materiais límpidas palpáveis
frias e mornas coloridas de ondas e descendentes pássaros.
Resumidas numa única
impronunciável Palavra.
Mas eu não sou o Senhor
embora venham comigo a Música e o Poema.
Por que vos ajoelhais se eu vim por sobre as ondas
e só tenho palavras?
Ouvi a minha voz de anjo que acordou:
Sou Poeta.
CARPE DIEM
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já se sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
SOLILÓQUIO
_ Tudo o que importa é ser maravilhoso.
A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera _ o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terra doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
_ Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios...
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!
_ Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra...
FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora. E outros poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.200.
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem --
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
E deus talvez, e nada
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-
[tra a chuva,
tenta fazê-la enterna - com se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
PRIMEIRO POEMA
Por que vos espantais se eu venho sobre as ondas?
Trago a paz e as distâncias vêm comigo
na boca tenho mundos e nos olhos palavras.
Ouvi-me.
Todas as coisas são palavras minhas:
a mais pura das nuvens
a mais pura que veio de longe e não se dissolveu
as colunas incolores além se levantando
quebradas luminosas líquidas colunas colunas
os cavalos que se empinam sobre a espuma
e o calmo silêncio povoando o mar.
Minhas palavras.
Antigas porém há pouco descobertas.
Lentas como o escurecer das nuvens refletidas
como o tremular tranqüilo da vaga adolescente.
Materiais límpidas palpáveis
frias e mornas coloridas de ondas e descendentes pássaros.
Resumidas numa única
impronunciável Palavra.
Mas eu não sou o Senhor
embora venham comigo a Música e o Poema.
Por que vos ajoelhais se eu vim por sobre as ondas
e só tenho palavras?
Ouvi a minha voz de anjo que acordou:
Sou Poeta.
CARPE DIEM
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já se sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
SOLILÓQUIO
_ Tudo o que importa é ser maravilhoso.
A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera _ o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terra doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
_ Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios...
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!
_ Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra...
FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora. E outros poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.200.
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POEMA ÀS PALAVRAS
. Há sempre uma palavra dentro da palavra
um gesto por exemplo
ou o zumbir dum insecto a
levantar o vento morto
Traz uma mensagem fugidia uma essência
que luz ao ritmo do tumulto da claridade
só perceptível pelos reflexos da própria luz
transparente interior das coisas
A sua transcendência identifica o fogo
o perfil exterior e seus artifícios intemporais
E apenas se lê em sinais indicativos
de virtuosos alquimistas procurando o oiro
na flecha no círculo dum arco íris caindo
magnânimo sobre o cinzento da terra.
Vieira Calado
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/2007/04/h-sempre-uma-palavra-dentro-da-palavra.html
A PALAVRA
a palavra em ângulo agudo
risco no ar
adaga
a descer sobre o homem
ferida à flor dos olhos.
voz letra
música
a palavra inevitável
II
a palavra a dizer(-se)
de algum lugar
ave a subir nas minhas mãos
a voar delas.
Silvia Chueire
. Há sempre uma palavra dentro da palavra
um gesto por exemplo
ou o zumbir dum insecto a
levantar o vento morto
Traz uma mensagem fugidia uma essência
que luz ao ritmo do tumulto da claridade
só perceptível pelos reflexos da própria luz
transparente interior das coisas
A sua transcendência identifica o fogo
o perfil exterior e seus artifícios intemporais
E apenas se lê em sinais indicativos
de virtuosos alquimistas procurando o oiro
na flecha no círculo dum arco íris caindo
magnânimo sobre o cinzento da terra.
Vieira Calado
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/2007/04/h-sempre-uma-palavra-dentro-da-palavra.html
A PALAVRA
a palavra em ângulo agudo
risco no ar
adaga
a descer sobre o homem
ferida à flor dos olhos.
voz letra
música
a palavra inevitável
II
a palavra a dizer(-se)
de algum lugar
ave a subir nas minhas mãos
a voar delas.
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Palavras de Sophia de Mello-Breyner
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello-Breyner
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Os Poetas
Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar, 1947
No Poema
Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro Sexto, 1962
Arte Poética
A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão
Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Búzio de Cós, 1997
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello-Breyner
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Os Poetas
Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar, 1947
No Poema
Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro Sexto, 1962
Arte Poética
A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão
Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Búzio de Cós, 1997
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Palavras de Hilda Hilst
PÁSSARO-POESIA
Hilda Hilst
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
..................................................
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst
I
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
II
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IV
Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante
Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.
Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana
Não essa que te louva
A cada verso
Mas outra
Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.
Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente
E porisso talvez
Te aborreças de mim. (…)
…………………………………………………….
Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
(I)
[Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]
Hilda Hilst
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
..................................................
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst
I
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
II
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
III
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IV
Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante
Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.
Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana
Não essa que te louva
A cada verso
Mas outra
Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.
Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente
E porisso talvez
Te aborreças de mim. (…)
…………………………………………………….
Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
(I)
[Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]
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Palavras de Gildes Bezerra
BATEIA
Façamos a experiência,
Tentados pela ciência
De garimpar a palavra.
Compensa a inexperiência
Quem sabe, pela insistência,
Que ganha o ouro que lavra.
SIGNIFICANTES E SIGNIFICADOS II
Enquanto
As cabeças se inclinam sobre os livros,
Como reverência ao saber,
Os corações,
Interligados pela sensibilidade,
Declinam os momentos de afeto
Entre palavras de convivência.
As vidas plenas
Transbordam a fertilidade da Razão
Sobre as páginas de jovens amanhãs.
Representam o signo
Da palavra Luta
Para viver a linguagem
Do vocábulo Paz.
DIÁRIO XXXVI
Leia
As palavras
Que falo.
DIÁRIO XLI
Ouça
As palavras
Que escrevo.
DIÁRIO LXVII
Não há o indizível
Para a sensibilidade.
DIÁRIO LXXIV
Os ouvidos ouvem as palavras faladas;
Os olhos lêem as palavras escritas.
E o coração
Ouve as palavras caladas
E lê as palavras não ditas.
Façamos a experiência,
Tentados pela ciência
De garimpar a palavra.
Compensa a inexperiência
Quem sabe, pela insistência,
Que ganha o ouro que lavra.
SIGNIFICANTES E SIGNIFICADOS II
Enquanto
As cabeças se inclinam sobre os livros,
Como reverência ao saber,
Os corações,
Interligados pela sensibilidade,
Declinam os momentos de afeto
Entre palavras de convivência.
As vidas plenas
Transbordam a fertilidade da Razão
Sobre as páginas de jovens amanhãs.
Representam o signo
Da palavra Luta
Para viver a linguagem
Do vocábulo Paz.
DIÁRIO XXXVI
Leia
As palavras
Que falo.
DIÁRIO XLI
Ouça
As palavras
Que escrevo.
DIÁRIO LXVII
Não há o indizível
Para a sensibilidade.
DIÁRIO LXXIV
Os ouvidos ouvem as palavras faladas;
Os olhos lêem as palavras escritas.
E o coração
Ouve as palavras caladas
E lê as palavras não ditas.
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sábado, 28 de agosto de 2010
ARTE POÉTICA - Jorge Luis Borges
ARTE POÉTICA
Tradução de Rolando Roque da Silva
Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
De El Hacedor (1960)
Tradução de Rolando Roque da Silva
Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
De El Hacedor (1960)
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Palavras de Luiz Antônio de Figueiredo
Ninguém pode contar
a história da poesia
só quem tiver memória
da primeira palavra,
que foi sonho, magia,
emoção. A palavra
que se perdeu no tempo
anterior ao conceito,
agora reverbera
como sonho desfeito
em todas as palavras:
rosa, fogo, papel
onde a poesia se escreve,
água, a boca dos mortos
falando a vida breve,
um livro que esquecemos
de abrir, algum momento
de amantes (sem palavra)
quando vem a ilusão
de suspender o tempo,
poesia indo à procura
desse tempo perdido,
se desfazendo em música
de palavras, miragem
do primeiro sentido.
Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo
A noite se reparte em mais de mil
e uma noites. Cada sono
um sonho diferente,
a noite de quem fica,
a noite de quem parte,
a insônia do doente.
Não se reparte o amor,
o canto,
a amizade,
a morte.
Um de cada vez,
ofertam-se inteiros
a cada um.
Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo
Pousa, felicidade,
como a luz da manhã,
de leve, sem alarde.
Amanhã será tarde.
Agora, viva a breve
delicadeza
dessa fugacidade.
Poemas do Tempo
Luiz Antonio de Figueiredo
a história da poesia
só quem tiver memória
da primeira palavra,
que foi sonho, magia,
emoção. A palavra
que se perdeu no tempo
anterior ao conceito,
agora reverbera
como sonho desfeito
em todas as palavras:
rosa, fogo, papel
onde a poesia se escreve,
água, a boca dos mortos
falando a vida breve,
um livro que esquecemos
de abrir, algum momento
de amantes (sem palavra)
quando vem a ilusão
de suspender o tempo,
poesia indo à procura
desse tempo perdido,
se desfazendo em música
de palavras, miragem
do primeiro sentido.
Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo
A noite se reparte em mais de mil
e uma noites. Cada sono
um sonho diferente,
a noite de quem fica,
a noite de quem parte,
a insônia do doente.
Não se reparte o amor,
o canto,
a amizade,
a morte.
Um de cada vez,
ofertam-se inteiros
a cada um.
Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo
Pousa, felicidade,
como a luz da manhã,
de leve, sem alarde.
Amanhã será tarde.
Agora, viva a breve
delicadeza
dessa fugacidade.
Poemas do Tempo
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Palavras de Emilio Moura
Libertação
Sou um poeta quase místico:
A vida é bela quando é um êxtase.
Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;
não ouvir as palavras frias que mudam o destino,
ou que o fazem semelhante a um autômato;
e saber a toda hora,
saber sempre
que a vida é bela quando é um êxtase.
Canção
Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.
Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.
Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.
Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.
Que tudo o mais é perdido.

Três caminhos
Percorri tantos caminhos,
tantos caminhos andei.
O primeiro era de nácar,
de rosa pura o segundo.
O terceiro era de nuvem,
no terceiro te encontrei.
O primeiro já trazia
teu nome brilhando no ar.
Não era nome de terra:
cantava coisas do mar.
Logo senti que o segundo
já era estrada de encantar.
Mas o terceiro, o terceiro
quantas voltas não foi dar!
Deixou meu corpo na terra,
meu coração no alto-mar.
Virou vento, virou bruma,
perdeu-se, rápido, no ar.
A fábrica do poeta
Fabrico uma esperança
como quem apaga
algo sujo num muro,
e ali, rápido, escreve:
Futuro.
Fabrico uma pureza
tão menina,
tão cristal e tão fonte
que, de repente,
É meu todo o horizonte.
Fabrico uma alegria
que é de ver as coisas
como se só agora
é que nascesse,
A aurora.
Fabrico uma certeza
exata
para cada instante.
A vida não está atrás,
Mas adiante.
Fabrico com o que tiro
de mim mesmo e do mundo
meu dia.
E ao que, em síntese, sou
Junto o que queria.
Fabrico uma hora densa,
como quem descobre.
Ah, quem diria
Que essa hora imensa
Já é poesia?
Emílio Moura
Ode ao primeiro poeta
-Comme lê monde était jeune,
et que la mort était loin!
Georges Chennevière
Quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram, trêmulos, diante da planície imensa,
eu te vi erguendo a tua voz forte, límpida e viva.
Eras jovem e tinhas a alegria de quem está descobrindo o mundo.
Foi a tua palavra que modelou a primeira paisagem, deu ritmo aos ventos e [imaginou a beleza ingênua dos primeiros e únicos símbolos . [que se perpetuaram.
Eras criatura e criador.
Estavas no gesto maravilhado que armava as primeiras tendas e na mão
[ indecisa que traçava o desenho mágico dos caminhos
[que se improvisavam;
na imagem da vida em que se embebeu o primeiro surto livre do espírito;
estavas em ti mesmo e fora de ti,
quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram trêmulos,
diante da planície imensa...
Sou um poeta quase místico:
A vida é bela quando é um êxtase.
Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;
não ouvir as palavras frias que mudam o destino,
ou que o fazem semelhante a um autômato;
e saber a toda hora,
saber sempre
que a vida é bela quando é um êxtase.
Canção
Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.
Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.
Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.
Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.
Que tudo o mais é perdido.

Três caminhos
Percorri tantos caminhos,
tantos caminhos andei.
O primeiro era de nácar,
de rosa pura o segundo.
O terceiro era de nuvem,
no terceiro te encontrei.
O primeiro já trazia
teu nome brilhando no ar.
Não era nome de terra:
cantava coisas do mar.
Logo senti que o segundo
já era estrada de encantar.
Mas o terceiro, o terceiro
quantas voltas não foi dar!
Deixou meu corpo na terra,
meu coração no alto-mar.
Virou vento, virou bruma,
perdeu-se, rápido, no ar.
A fábrica do poeta
Fabrico uma esperança
como quem apaga
algo sujo num muro,
e ali, rápido, escreve:
Futuro.
Fabrico uma pureza
tão menina,
tão cristal e tão fonte
que, de repente,
É meu todo o horizonte.
Fabrico uma alegria
que é de ver as coisas
como se só agora
é que nascesse,
A aurora.
Fabrico uma certeza
exata
para cada instante.
A vida não está atrás,
Mas adiante.
Fabrico com o que tiro
de mim mesmo e do mundo
meu dia.
E ao que, em síntese, sou
Junto o que queria.
Fabrico uma hora densa,
como quem descobre.
Ah, quem diria
Que essa hora imensa
Já é poesia?
Emílio Moura
Ode ao primeiro poeta
-Comme lê monde était jeune,
et que la mort était loin!
Georges Chennevière
Quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram, trêmulos, diante da planície imensa,
eu te vi erguendo a tua voz forte, límpida e viva.
Eras jovem e tinhas a alegria de quem está descobrindo o mundo.
Foi a tua palavra que modelou a primeira paisagem, deu ritmo aos ventos e [imaginou a beleza ingênua dos primeiros e únicos símbolos . [que se perpetuaram.
Eras criatura e criador.
Estavas no gesto maravilhado que armava as primeiras tendas e na mão
[ indecisa que traçava o desenho mágico dos caminhos
[que se improvisavam;
na imagem da vida em que se embebeu o primeiro surto livre do espírito;
estavas em ti mesmo e fora de ti,
quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram trêmulos,
diante da planície imensa...
Postado por
FESTIVAL DA PALAVRA
às
20:20
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