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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Palavras de Murilo Mendes

Reflexão n°.1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito comprido.





Somos todos poetas



Assisto em mim a um desdobrar de planos.

as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,

A luz desce das origens através dos tempos

E caminha desde já

Na frente dos meus sucessores.

Companheiro,

Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.

Sou todos e sou um,

Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,

Pelos gritos isolados que não entraram no coro.

Sou responsável pelas auroras que não se levantam

E pela angústia que cresce dia a dia.



In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.



O menino sem passado



Monstros complicados

não povoaram meus sonos de criança

porque o saci-pererê não fazia mal a ninguém

limitando-se moleque a dançar maxixes desenfreados

no mundo das garotas de madeira

que meu tio habilidoso fazia para mim.

A mãe-d’água só se preocupava

em tomar banhos asseadíssima

na piscina do sítio que não tinha chuveiro.

De noite eu ia no fundo do quintal

pra ver se aparecia um gigante com trezentos anos

que ia me levar dentro dum surrão,

mas não acreditava nada.

Fiquei sem tradição sem costumes nem lendas

estou diante do mundo

deitado na rede mole

que todos os países embalançam.



Amantes
 


Os dois amantes sentados num banco

Já se cansaram, nem se olham mais,

Esgotando os beijos e os abraços.

Pensaram um dia que o carinho fosse eterno:

Estão ligados somente pela falta de assunto

E pelo murmúrio das ondas

A luz da tarde é febril

E triste o final do amor.



(Amantes, Murilo Mendes)

Palavras de Nuno Judice

Ausência

O fundamento das palavras perde-se


na lava dos lábios, quando o fogo do amor

os incendeia. Rios que se enrolam

nos ombros da madrugada, ou simples

regatos que correm por entre os dedos -

vêm ao encontro dos amantes,

para que os seus olhos cansados da noite

os sigam na planície da pele,

em busca de um estuário de sensações.


Porém, as flores presas no cabelo,

sugerindo um movimento de hera, dão-te

uma hesitação de outono, como se o tempo

te cobrisse com a sua sombra. Só o que pensas

te empresta uma realidade - mas não sei o que

pensas. E se o diadema do dia te ilumina

o rosto, e os teus olhos encontram os meus,

espero que me respondas: A que armário

de esquecimento foste buscar o teu silêncio?
 
Nuno Judice
 
 
 
Enigma
 
Procurei um graal que pudesse pousar nos teus ombros,


para o encher com o filtro que embriaga os deuses

famintos de amor. Mas tu soltaste os cabelos

e escondeste-me o teu corpo, para que eu entrasse

na sua floresta em busca de uma clareira. Perdi-me

por entre as folhas e flores de uma vegetação de

murmúrios; e quando ouvi um canto de pássaros

anunciarem a madrugada, já não precisei de

nenhum graal para descobrir o teu segredo


Nuno Júdice



O amor

Ao dizer que te amo é


como se as portas da vida se

abrissem, e uma luz nascida de dentro

do desejo de ti me trouxesse

até mim. Mas ao dizer

que te amo, são as portas

da noite que se fecham, e é

contigo que espero a última

madrugada, onde entre

mim e ti

nenhumas portas existam.

Nuno Júdice



Lamento de Orfeu


Quero chegar à ideia, tocar o seu corpo


abstracto, e sentir na sua pele as palavras que compõem

a frase musical do espírito. Para isso, o meu olhar

procura o campo das sensações, percorre-o com

a lâmina acerada da sua luz, e recorta de entre

o magma dos sentimentos a figura exacta

do amor. Tenho de encontrar a pura expressão

do som, o mais alto acorde de entre os que envolvem

a sua voz, e pedir aos deuses que me emprestem

um vocabulário de nuvens, para que a sua névoa

desça ao fundo dos meus olhos, e obscureça

a linha da razão. A cegueira da alma restituir-me-á

a visão que só os dedos pressentem, quando

te encontram; e voltarei a ver, por entre

as sombras, o rosto amado.



Nuno Júdice
 

Palavras de Antonio Ramos Rosa

Um mundo

É um sonho ou talvez só uma pausa

na penumbra. Esta massa obscura

que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário

prossegue uma viagem imóvel num jardim.

Vejo a brancura entre os astros e os ramos.

Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra

e que tudo ascende sob um sopro silencioso.

Nenhum sentido mas os signos amam-se

e o brilho e o rumor formam um mundo.


António Ramos Rosa

ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 67




Escrevo-te com o fogo e a água



Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te

no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.


O que procuro é um coração pequeno, um animal

perfeito e suave. Um fruto repousado,

uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

uma pergunta que não ouvi no inanimado,

um arabesco talvez de mágica leveza.


Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

o grande sopro imóvel da primavera efémera.


António Ramos Rosa Volante Verde - 1986 in Antologia Poética





Quem escreve


Quem escreve quer morrer, quer renascer

num ébrio barco de calma confiança.

Quem escreve quer dormir em ombros matinais

e na boca das coisas ser lágrima animal

ou o sorriso da árvore. Quem escreve

quer ser terra sobre terra, solidão

adorada, resplandecente, odor de morte

e o rumor do sol, a sede da serpente,

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,

o negro meio-dia sobre os olhos.



António Ramos Rosa

ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 66








O horizonte das palavras


Sem direcção, sem caminho

escrevo esta página que não tem alma dentro.

Se conseguir chegar à substância de um muro

acenderei a lâmpada de pedra na montanha.

E sem apoio penetro nos interstícios fugidios

ou enuncio as simples reiterações da terra,

as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.

Tentarei construir a consistência num adágio

de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.

E na substância entra a mão, o balbucio branco

de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,

um organismo verde aberto sobre o mar,

as teclas do verão, as indústrias da água.

Eu sou agora o que a linguagem mostra

nas suas verdes estratégias, nas suas pontes

de música visual: o equilíbrio preenche os buracos

com arcos, colinas e com árvores.

Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.

O impronunciável é o horizonte do que é dito.



António Ramos Rosa

ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Palavras de Rubem Alves

O poema é a voz do inconsciente.(...) Pode ser que a cabeça não entenda, mas o inconsciente entende. porque é a lógica dos sonhos.




E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.



Amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera.



O Amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário



Por que rimos e choramos por aquilo que é fantasia? A Alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem.



O encantamento não está no que se vê. Está no que se imagina.



É maravilhoso esse poder que tem os livros para criar pontes entre pessoas que se amam sem se conhecer.



E percebo que tristeza é isso: estar diante de um espaço onde um dia houve o encontro.



Não basta silêncio de fora. É preciso silêncio de dentro. Ausência de pensamentos. E aí (...) a gente começa a ouvir coisa que não ouvia.



A alma dos poetas está cheia de objetos decrépitos.É é por isso que fazem poesia, para trazê-los de novo à vida.



Toda pérola esconde uma dor no fundo da sua beleza.

Para se escrever sobre a paixão é preciso estar na praia. É só da praia que se pode contemplar o oceano.



Eu mesmo, sempre que um meteoro ilumina os céus (coisa efêmera...), não posso evitar o aparecimento de meu desejo mais profundo.



Talvez seja por isso que os navegadores navegam: porque no perigo e no abismo eles vêem refletida a eternidade.



Sempre fui levado por uma força mais forte que a minha razão à praias com que nunca havia sonhado.Foi assim que me tornei escritor...



O mar de Minas não é o mar. O mar de Minas é no céu, pro mundo olhar pra cima e navegar sem nunca ter um porto onde chegar.



Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.



A música clássica dá alegria.Há músicas que dão prazer.Mas a alegria é muito mais que prazer .



Quem ouve as estrelas fica tranquilo.

Palavras...

«Hoje estou bêbado de universo» (Giuseppe Ungaretti)


«Acho que sábado é a rosa da semana.» (Clarice Lispector)

«Fazer o poema / é estar em conflito / com o sangue que corre nas veias do mito.» (Francisco Carvalho)

«Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho» (Murilo Mendes) *

«A poesia não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador.» (Octavio Paz) *

«O nome de uma mulher me delata. / Me dói uma mulher em todo o corpo.» (Jorge Luis Borges) *



«Eu sou o meu próprio escândalo contínuo.» (Murilo Mendes)

«Fique este dia e esta noite comigo e você vai possuir a origem de todos os poemas» (Walt Whitman) *

«Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.» (Carlos Drummond de Andrade) *

«Sou poesia. Não sei me traduzir...» (Dante Milano) *



Uma palavra / basta / para acordar os /demônios / que se hospedam / no poema.» (Francisco Carvalho) *

«Ser livre / é com freqüência estar sozinho.» (W.H. Auden)

«Só na morte não somos estrangeiros.» (Eugénio de Andrade)

«As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.» (António Ramos Rosa)

«Os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos.» (Mario Quintana)
 
 

Palavras...

Poética

Com as lágrimas do tempo

E a cal do meu dia

Eu fiz o cimento

Da minha poesia

E na perspectiva

Da vida futura

Ergui em carne viva

Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa

Se é torre ou se é templo.

(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara

Pertence ao seu tempo

.... Entrai, irmãos meus!

Vinícius de Moraes



Definição de poesia - Boris Pasternak


"Um risco maduro de assobio. O trincar do gelo comprimido. A noite, a folha sob o granizo. Rouxinóis num dueto desafio. Um doce ervilhal abandonado A dor do universo numa fava. Fígaro: das estantes e flautas - Geada no canteiro, tombado. Tudo o que para a noite releva Nas funduras da casa de banho, Trazer para o jardim uma estrela Nas palmas úmidas, tiritando. Mormaço: como pranchas na água, Mais raso. Céu de bétulas, turvo. Se dirá que as estrelas gargalham, E no entanto o universo está surdo."
 
A CANÇÃO MAIS RECENTE

O poeta

com a sua lanterna

mágica está sempre

no começo das coisas.

É como a água, eterna-

mente matutina.

Pouco importa a noite

lhe ponha a pena

do silêncio na asa.

Ele tem a manhã

em tudo quanto faça.

Além disso o amanhã

nunca deixará de ter pássa-

ros.

Cassiano Ricardo


«Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.» (Vladímir Maiakóvski)



As palavras errantes



As palavras não são imóveis como os pilares que

sustentam as pontes estáticas

ou os arranha-céus que acendem as suas luzes na manhã

vertiginosa.

Elas caminham como os ciganos em busca da pátria

nenhuma escondida em todas as pátrias.

Armam suas barracas à beira da estrada mas logo partem

e avançam na escuridão do mundo como os sonâmbulos

ou saltam como os grilos na grama ainda úmida de

orvalho.

Sempre mudam de lugar como os ataúdes nas lojas

funerárias.

Nenhum prego fixa uma palavra na página aberta

na desolação do dia.

Ela pousa no papel como uma borboleta e em seguida voa

e procura um jardim. As palavras são pássaros migratórios

que nos incitam a partir para as montanhas.

São estrelas errantes. São navios.

E eu sou uma palavra: estou sempre andando

no mundo que é caminho.



Ledo Ivo

Palavras de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos sobre a arte de escrever

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.


Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."



Graciliano Ramos

Palavras de Cecília Meireles

Vôo

Alheias e nossas as palavras voam.

Bando de borboletas multicores, as palavras voam

Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,

as palavras voam.

Viam as palavras como águias imensas.

Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as

palavras voam.

E às vezes pousam.

Cecília Meireles


Motivo

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.


Cecília Meireles




Numa noite de lua escreverei palavras


Numa noite de lua escreverei palavras,

simples palavras tão certas

que hão de voar para longe, com as asas súbitas,

e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,

nascera de novo no mundo.

Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados

livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,

é doce caminhar, viver o que se vive.

Porque a noite é tão grande... Ah,quem faz tanta noite?

E estar próximo é tão impossível


Cecília Meireles




Canção da Alta Noite



Alta noite, lua quieta,

muros frios, praia rasa.

Andar, andar que um poeta

não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.

O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,

não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo

na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,

nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente

Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,

andar por andar - somente.

Não necessita de nada.

Cecília Meireles



Timidez



Basta-me um pequeno gesto,


feito de longe e de leve,


para que venhas comigo


e eu para sempre te leve...


- mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída

das montanhas dos instantes


desmancha todos os mares


e une as terras mais distantes...


- palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,


apago meus pensamentos,


ponho vestidos nocturnos,


- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,


os mundos vão navegando


nos ares certos do tempo,


ate' não se sabe quando...


- e um dia me acabarei.


Cecília Meireles






Uma pequena aldeia


No canto do galo há uma pequena aldeia

de mulheres risonhas e pobres

que trabalham em casas de pedra

com belos braços brancos

e olhos cor de lágrima

São umas corajosas mulheres

que tecem em teares antigos,

são Penélopes obscuras

em suas casas de pedra

com fogões de pedra

nestes tempos de pedra.

Elas, porém, cantam com frescura,

a leveza, a graça, a alegria generosa

da água das cascatas,

que corre de dentro do mundo

pelo mundo

para fora do mundo.

No canto do galo há, de repente,

essa pequena aldeia,

com essas belas mulheres,

essas boas mulheres escondidas,

essas criaturas lendárias

que trabalham e cantam

e morrem.

O amor é uma roseira à sua porta,

o sonho é um barco no mar

a vida é uma brasa na lareira

um pano que nasce, fio a fio.

A morte é um dia santo

para sempre no céu.


Cecília Meireles

Procura da poesia

Procura da poesia


Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?

Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.)

Palavras de Manoel de Barros

"É pelo beijo que o amor se edifica. É no calor da boca que o alarme de carne grita."

"Se comunica por encantamentos. E por não ser contaminada de contradições, a linguagem dos pássaros só produz gorjeios."

"A hera veste meus princípios e meus óculos."

"A primavera está por um trevo!"

"A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos."

"Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. As palavras continuam com os seus deslimites."

"Tem mais presença em mim o que me falta."

"Falar a partir de ninguém. Ensina a ver o sexo das nuvens. E ensina o sentido sonoro das palavras."

"Tenho uma confisão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira."

"Toda frase que se faz é preciso gozar nela. E é preciso fazer o serviço com paciência para que o gozo dê frutos."

"Ontem choveu no futuro."

"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."

"Sou hoje um caçador de achadouros da infância."

"Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão."

"Eu sou meu estandarte pessoal. Preciso do desperdício das palavras para conter-me."

"A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem. Nos encantos de um sabiá."

"E agora que fazer com esta manhã desabrochada a pássaros?"

"Estou sem eternidades."

"Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres."

"Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde."

"Nas brisas vem sempre um silêncio de garças."

"Escutei um perfume de sol nas águas."

"É no ínfimo que vejo a exuberância."

"Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou."

"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."

"Sou formado em desencontros."

"O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas."

"Os delírios verbais me terapeutam."

"Palavras que me aceitam como sou, eu não aceito."

"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."

"Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam. Tem hora leio avencas. Tem hora, Proust. Ouço aves e beethovens."


Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras."

Palavras de amor

O Verbo No Infinito

Ser criado, gerar-se, transformar

O amor em carne e a carne em amor; nascer

Respirar, e chorar, e adormecer

E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar

Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir

E começar a amar e então sorrir

E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver

E perder, e sofrer, e ter horror

De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor

E viver esse amor até morrer

E ir conjugar o verbo no infinito...


Vinícius de Moraes






Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen






Dois corpos

Dois corpos face a face

São ás vezes duas ondas

E a noite é um oceano.

Dois corpos face a face

São ás vezes duas pedras

E a noite um deserto.

Dois corpos face a face

São ás vezes qual raízes

Dentro da noite enlaçadas.

Dois corpos face a face

São ás vezes qual navalhas

E a noite um relâmpago.

Dois corpos face a face

São dois astros caindo

Num céu que está vazio.

Octávio Paz



Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andrese



Se tanto me dói que as coisas passem…

Se tanto me dói que as coisas passem

É porque cada instante em mim foi vivo

Na luta por um bem definitivo

Em que as coisas de amor se eternizassem.


Sophia de Mello Breyner Andresen



Canção da falsa adormecida


Se te pareço ausente, não creias:

Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,

Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros

E escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites neste breve sono;

Não dês valor maior ao meu silêncio;

E se leres recados numa folha branca,

Não creias também: é preciso encostar

Teus lábios em meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:

Palavras

São o meu jeito mais secreto de calar.


Lya Luft

 
 
 
Amor e Seu Tempo


Amor é privilégio de maduros


Estendidos na mais estreita cama,

Que se torna a mais larga e mais relvosa,

Roçando, em cada poro, o céu do corpo.


É isto, amor: o ganho não previsto,

O prêmio subterrâneo e coruscante,

Leitura de relâmpago cifrado,

Que, decifrado, nada mais existe


Valendo a pena e o preço do terrestre,

Salvo o minuto de ouro no relógio

Minúsculo, vibrando no crepúsculo.


Amor é o que se aprende no limite,

Depois de se arquivar toda a ciência

Herdada, ouvida. amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Palavras de Pedro D'Arcádia Netto

Aurora

Nasce em mim

essa aurora para te amar

longamente

- uma aurora sempre jovem

que o dia não vencerá,

nem a noite,

Orvalho, sol e noite,

amalgamados, sempre aurora,

na glória tão grande de te amar!



Pedro D'Arcádia Netto



Razão

Amo as pessoas

precisamente porque elas findam.

Não pelo inferno

nem pelo paraíso:

amo as pessoas

precisamente porque elas findam.



Pedro D'Arcádia Netto





"... a vida é um

sopro divino

temporariamente

esquecido na terra."


Pedro D'Arcádia Netto




História da árvore em agosto

Vê como em agosto

são tenros os brotos amarelados

e como eles tecem a árvore.

Vê como o brando leque

dos galhos deita-se no ar,

com toda a confiança.

Vê:

Com todo o conflito de seus ramos,

ela é perfeita

e linda

e eterna

contra o céu de agosto.

Vê, amigo

Vê como ela é eterna.



Pedro D'Arcádia Netto

Palavras de Mário Faustino

VIDA TODA LINGUAGEM

Vida toda linguagem,

frase perfeita sempre, talvez verso,

geralmente sem qualquer adjetivo,

coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,

há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome

aqui, ali, assegurando a perfeição

eterna do período, talvez verso,

talvez interjetivo, verso, verso.

Vida toda linguagem,

feto sugando em língua compassiva

o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!

leite jorrado em fonte adolescente,

sêmen de homens maduros, verbo, verbo.

Vida toda linguagem,

bem o conhecem velhos que repetem,

contra negras janelas, cintilantes imagens

que lhes estrelam turvas trajetórias.

Vida toda linguagem --

como todos sabemos

conjugar esses verbos, nomear

esses nomes:

amar, fazer, destruir,

homem, mulher e besta, diabo e anjo

E deus talvez, e nada

Vida toda linguagem,

vida sempre perfeita,

imperfeitos somente os vocábulos mortos

com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-

[tra a chuva,

tenta fazê-la enterna - com se lhe faltasse

outra, imortal sintaxe

à vida que é perfeita

língua

eterna.



PRIMEIRO POEMA



Por que vos espantais se eu venho sobre as ondas?


Trago a paz e as distâncias vêm comigo

na boca tenho mundos e nos olhos palavras.

Ouvi-me.


Todas as coisas são palavras minhas:

a mais pura das nuvens

a mais pura que veio de longe e não se dissolveu

as colunas incolores além se levantando

quebradas luminosas líquidas colunas colunas

os cavalos que se empinam sobre a espuma

e o calmo silêncio povoando o mar.

Minhas palavras.

Antigas porém há pouco descobertas.

Lentas como o escurecer das nuvens refletidas

como o tremular tranqüilo da vaga adolescente.

Materiais límpidas palpáveis

frias e mornas coloridas de ondas e descendentes pássaros.

Resumidas numa única

impronunciável Palavra.

Mas eu não sou o Senhor

embora venham comigo a Música e o Poema.

Por que vos ajoelhais se eu vim por sobre as ondas

e só tenho palavras?

Ouvi a minha voz de anjo que acordou:


Sou Poeta.


CARPE DIEM



Que faço deste dia, que me adora?

Pegá-lo pela cauda, antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música, em palavra,

Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?

Força é guardá-lo em mim, que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva, feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já se sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.

Já nele a luz da lua – a morte – mora,

De traição foi feito: vai-se embora.)



SOLILÓQUIO

_ Tudo o que importa é ser maravilhoso.



A maravilha: o gesto da inocência.

E do aceno o milagre a renascença

de deslumbrados olhos infantil espaço

e primavera _ o homem volta ao homem;

o inefável gera enfim o mal sublime

no coração deserto; e da terra doença

a rosa azul desponta e levanto-me rei.

_ Eu mesmo sou o encantador do mundo!

Seres e estrelas brotam de meus lábios...

e morro deste belo sofrimento

de ser maravilhoso!



                           _ Ah, quem pudesse

gritar à noite e ao tempo essas palavras

e partir pelo vento semeando versos

e terminando a criação da terra...





FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora. E outros poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.200.

Palavras...

POEMA ÀS PALAVRAS


. Há sempre uma palavra dentro da palavra

um gesto por exemplo

ou o zumbir dum insecto a

levantar o vento morto


Traz uma mensagem fugidia uma essência

que luz ao ritmo do tumulto da claridade

só perceptível pelos reflexos da própria luz

transparente interior das coisas


A sua transcendência identifica o fogo

o perfil exterior e seus artifícios intemporais


E apenas se lê em sinais indicativos

de virtuosos alquimistas procurando o oiro

na flecha no círculo dum arco íris caindo

magnânimo sobre o cinzento da terra.

Vieira Calado

http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/2007/04/h-sempre-uma-palavra-dentro-da-palavra.html


A PALAVRA


a palavra em ângulo agudo

risco no ar

adaga

a descer sobre o homem

ferida à flor dos olhos.

voz letra

música

a palavra inevitável

II

a palavra a dizer(-se)

de algum lugar

ave a subir nas minhas mãos

a voar delas.

Silvia Chueire

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Palavras de Sophia de Mello-Breyner

Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes!



Sophia de Mello-Breyner




Poesia


Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,

Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.

No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua

E dos jardins, os gestos recebidos

E o tumulto dos gestos pressentidos

Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,

Não pelo meu rumor que só perdi,

Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei

E em cujo amor de amor me eternizei.




Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.





Os Poetas


Solitários pilares dos céus pesados,

Poetas nus em sangue, ó destroçados

Anunciadores do mundo

Que a presença das coisas devastou.

Gesto de forma em forma vagabundo

Que nunca num destino se acalmou.

Sophia de Mello Breyner Andresen


in Dia do Mar, 1947


No Poema

Transferir o quadro o muro a brisa

A flor o copo o brilho da madeira

E a fria e virgem limpidez da água

Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar de decadência morte e ruína

O instante real de aparição e de surpresa

Guardar num mundo claro

O gesto claro da mão tocando a mesa.

Sophia de Mello Breyner Andresen


in Livro Sexto, 1962





Arte Poética


A dicção não implica estar alegre ou triste

Mas dar minha voz à veemência das coisas

E fazer do mundo exterior substância da minha mente

Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta

Atenta para a caçada no quarto penumbroso

Sophia de Mello Breyner Andresen


in O Búzio de Cós, 1997

Palavras de Hilda Hilst

PÁSSARO-POESIA
Hilda Hilst

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia

Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível

Porque de barro e palha tem sido esta viagem

Que faço a sós comigo. Isenta de traçado

Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem

Hei de levar apenas a vertigem e a fé:

Para teu corpo de luz, dois fardos breves.

Deixarei palavras e cantigas. E movediças

Embaçadas vias de Ilusão.

Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti

Pássaro-Poesia

E a paisagem limite: o fosso, o extremo

A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.

No Amanhã.


..................................................
 
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.


Hilda Hilst

I

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.

Voz e vento apenas

Das coisas do lá fora

E sozinha supor

Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento

Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento

Meu ouvido escutaria

O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.

Porque é melhor sonhar tua rudeza

E sorver reconquista a cada noite

Pensando: amanhã sim, virá.

E o tempo de amanhã será riqueza:

A cada noite, eu Ariana, preparando

Aroma e corpo. E o verso a cada noite

Se fazendo de tua sábia ausência.

II

Porque tu sabes que é de poesia

Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,

Que a teu lado te amando,

Antes de ser mulher sou inteira poeta.

E que o teu corpo existe porque o meu

Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,

É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante

Quando amanhece e me dizes adeus.

III

A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra

Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo

Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta

E manda que eu te pergunte assim de frente:

À uma mulher que canta ensolarada

E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

IV

Porque te amo

Deverias ao menos te deter

Um instante

Como as pessoas fazem

Quando vêem a petúnia

Ou a chuva de granizo.

Porque te amo

Deveria a teus olhos parecer

Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso

Mas outra

Reverso de sua própria placidez

Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,

é que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente

E porisso talvez

Te aborreças de mim. (…)



…………………………………………………….


Dez chamamentos ao amigo


Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

(I)


[Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

Palavras de Gildes Bezerra

BATEIA


Façamos a experiência,

Tentados pela ciência

De garimpar a palavra.

Compensa a inexperiência

Quem sabe, pela insistência,

Que ganha o ouro que lavra.



SIGNIFICANTES E SIGNIFICADOS II

Enquanto

As cabeças se inclinam sobre os livros,

Como reverência ao saber,

Os corações,

Interligados pela sensibilidade,

Declinam os momentos de afeto

Entre palavras de convivência.

As vidas plenas

Transbordam a fertilidade da Razão

Sobre as páginas de jovens amanhãs.

Representam o signo

Da palavra Luta

Para viver a linguagem

Do vocábulo Paz.



DIÁRIO XXXVI

Leia

As palavras

Que falo.



DIÁRIO XLI

Ouça

As palavras

Que escrevo.



DIÁRIO LXVII

Não há o indizível

Para a sensibilidade.



DIÁRIO LXXIV

Os ouvidos ouvem as palavras faladas;

Os olhos lêem as palavras escritas.

E o coração

Ouve as palavras caladas

E lê as palavras não ditas.

sábado, 28 de agosto de 2010

ARTE POÉTICA - Jorge Luis Borges

ARTE POÉTICA


Tradução de Rolando Roque da Silva

Mirar o rio, que é de tempo e água,

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, sentir que a morte,

Que a nossa carne teme, é essa morte

De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo

Desses dias do homem, de seus anos,

E converter o ultraje desses anos

Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso

Um triste ouro, e assim é a poesia,

Que é imortal e pobre. A poesia

Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face

Nos observa do fundo de um espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao avistar sua Ítaca

Humilde e verde. A arte é essa Ítaca

De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável

Que passa e fica e que é cristal de um mesmo

Heráclito inconstante que é o mesmo

E é outro, como o rio interminável.





ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro río,

saber que nos perdemos como el río

y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño

que sueña no soñar y que la muerte

que teme nuestra carne es esa muerte

de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo

de los días del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal y pobre. La poesía

vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara

nos mira desde el fondo de un espejo;

el arte debe ser como ese espejo

que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

lloró de amor al divisar su Itaca

verde y humilde. El arte es esa Itaca

de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable

que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

y es otro, como el río interminable.



De El Hacedor (1960)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Palavras de Luiz Antônio de Figueiredo

Ninguém pode contar

a história da poesia

só quem tiver memória

da primeira palavra,

que foi sonho, magia,

emoção. A palavra

que se perdeu no tempo

anterior ao conceito,

agora reverbera

como sonho desfeito

em todas as palavras:

rosa, fogo, papel

onde a poesia se escreve,

água, a boca dos mortos

falando a vida breve,

um livro que esquecemos

de abrir, algum momento

de amantes (sem palavra)

quando vem a ilusão

de suspender o tempo,

poesia indo à procura

desse tempo perdido,

se desfazendo em música

de palavras, miragem

do primeiro sentido.


Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo


A noite se reparte em mais de mil


e uma noites. Cada sono

um sonho diferente,

a noite de quem fica,

a noite de quem parte,

a insônia do doente.

Não se reparte o amor,

o canto,

a amizade,

a morte.

Um de cada vez,

ofertam-se inteiros

a cada um.


Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo


Pousa, felicidade,

como a luz da manhã,

de leve, sem alarde.

Amanhã será tarde.

Agora, viva a breve

delicadeza

dessa fugacidade.



Poemas do Tempo

Luiz Antonio de Figueiredo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Palavras de Emilio Moura

Libertação


Sou um poeta quase místico:

A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,

não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,

mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;

não ouvir as palavras frias que mudam o destino,

ou que o fazem semelhante a um autômato;

e saber a toda hora,

saber sempre

que a vida é bela quando é um êxtase.




Canção


Viver não dói. O que dói

é a vida que se não vive.

Tanto mais bela sonhada,

quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói

é o tempo, essa força onírica

em que se criam os mitos

que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói

é essa estranha lucidez,

misto de fome e de sede

com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,

ferindo fundo, ferindo,

é a distância infinita

entre a vida que se pensa

e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.




 
Três caminhos
 
Percorri tantos caminhos,

tantos caminhos andei.

O primeiro era de nácar,

de rosa pura o segundo.

O terceiro era de nuvem,

no terceiro te encontrei.

O primeiro já trazia

teu nome brilhando no ar.

Não era nome de terra:

cantava coisas do mar.

Logo senti que o segundo

já era estrada de encantar.

Mas o terceiro, o terceiro

quantas voltas não foi dar!

Deixou meu corpo na terra,

meu coração no alto-mar.

Virou vento, virou bruma,

perdeu-se, rápido, no ar.



A fábrica do poeta



Fabrico uma esperança

como quem apaga

algo sujo num muro,

e ali, rápido, escreve:

Futuro.


Fabrico uma pureza

tão menina,

tão cristal e tão fonte

que, de repente,

É meu todo o horizonte.


Fabrico uma alegria

que é de ver as coisas

como se só agora

é que nascesse,

A aurora.


Fabrico uma certeza

exata

para cada instante.

A vida não está atrás,

Mas adiante.


Fabrico com o que tiro

de mim mesmo e do mundo

meu dia.

E ao que, em síntese, sou

Junto o que queria.


Fabrico uma hora densa,

como quem descobre.

Ah, quem diria

Que essa hora imensa

Já é poesia?


Emílio Moura




Ode ao primeiro poeta
-Comme lê monde était jeune,
et que la mort était loin!
   Georges Chennevière


Quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram, trêmulos, diante da planície imensa,

eu te vi erguendo a tua voz forte, límpida e viva.

Eras jovem e tinhas a alegria de quem está descobrindo o mundo.

Foi a tua palavra que modelou a primeira paisagem, deu ritmo aos ventos e [imaginou a beleza ingênua dos primeiros e únicos símbolos . [que se perpetuaram.

Eras criatura e criador.

Estavas no gesto maravilhado que armava as primeiras tendas e na mão

[ indecisa que traçava o desenho mágico dos caminhos

[que se improvisavam;

na imagem da vida em que se embebeu o primeiro surto livre do espírito;

estavas em ti mesmo e fora de ti,

quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram trêmulos,

diante da planície imensa...

Festival da Palavra - parceria UNESP Assis e Poiesis