Programa do Festival

domingo, 22 de agosto de 2010

Octavio Paz

"A palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".



Octavio Paz

Vida

Vida


Por mais que se explique

Com subtis palavras

A vida: um mistério.
 
 
Antônio Lázaro de Almeida Prado

sábado, 21 de agosto de 2010

DESTINO DO POETA

DESTINO DO POETA




Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.

Deixa que eu me perca entre palavras,

deixa que eu seja o ar entre esses lábios,

um sopro erramundo sem contornos,

breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


(Trad. Haroldo de Campos)



Octavio Paz

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Palavra Mágica

A Palavra Mágica



Certa palavra dorme na sombra

de um livro raro.

Como desencantá-la?

É a senha da vida

a senha do mundo.

Vou procurá-la.



Vou procurá-la a vida inteira

no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,

não desanimo,

procuro sempre.



Procuro sempre, e minha procura

ficará sendo

minha palavra.



Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Catar feijão

Catar feijão




1.

Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelada, por chumbo seu verbo:

pois para catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.



2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:

o de que entre os grãos pesados entre

um grão qualquer, pedra ou indigesto,

um grão imastigável, de quebrar dente.

Certo não, quando ao catar palavras:

a pedra dá à frase seu grão mais vivo:

obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a como o risco.



João Cabral de Melo Neto

As palavras - Eugénio de Andrade

As palavras

 Eugénio de Andrade


São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poema às Palavras

 Poema às Palavras



Tem uns homens por aí

com medo das palavras.



Tem uns poetas por aí

segregacionistas.



Tem preconceitos contra

as palavras:

esta não serve - é mestiça,

esta também não - é muito comum,

é do povo, não é importante,

e aquela também - não tem educação

fala muito alto, é palavrão.



Tem poeta por aí cochichando

como gente muito fina

de salão,

falando entre-dentes

perpetrando futilidades

e maldades, como comadres.



Tem uns homens por ai

tratando as palavras pela cor

de sua pele:

não cruzam com as palavras, negras

amarelas, mulatas,

só fazem poemas brancos, poemas

puros, poemas arianos, poemas de raça.



Que se danem! Faço filhos

com todas as palavras

basta que elas se entreguem, e me amem

e saiam com o meu verso, à rua

para cantar.

( Poema de J G de Araujo Jorge in "O Poder da Flor" 1a ed.1969 )

Escrever - Graciliano Ramos

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.


Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."


Graciliano Ramos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Festival da Palavra - parceria UNESP Assis e Poiesis




Festival da Palavra
UNESP Assis
dias 16 e 17 de setembro de 2010
Parceria UNESP Poiesis
Idealizadores:
Mario Sergio Vasconcelos - UNESP Assis
Frederico Barbosa - Poiesis
Fernanda M. Bueno de Almeida Prado - Poiesis

Cartaz do Festival da Palavra




Realização em parceria UNESP- Poiesis
Campus da UNESP de Assis
dias 16 e 17 de setembro de 2010

domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre a Escrita...


Sobre a Escrita...


Clarice Lispector

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.


Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

Entre o que vejo e o que digo...

Entre o que vejo e o que digo...

                                        A Roman Jakobson
        Traduzido por Anderson Braga Horta


Entre o que vejo e o que digo,

entre o que digo e o que calo,

entre o que calo e o que sonho,

entre o que sonho e o que esqueço,

a poesia.

Desliza

entre o sim e o não:

diz

o que calo,

cala

o que digo,

sonha

o que esqueço.

Não é um dizer:

é um fazer.

É um fazer

que é um dizer.

A poesia

se diz e se ouve:

é real.

E, apenas digo

é real,

se dissipa.

Será assim mais real?

2

Idéia palpável,

palavra

impalpável:

a poesia

vai e vem

entre o que é

e o que não é.

Tece reflexos

e os destece.

A poesia

semeia olhos na página,

semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,

as palavras olham,

os olhares pensam.

Ouvir

os pensamentos,

ver

o que dizemos,

tocar

o corpo da idéia.

Os olhos

se fecham,

as palavras se abrem´.



Octavio Paz

OCTAVIO PAZ (1914–1998) — Mexicano. Prêmio Nobel de Literatura em 1991. Importante ensaísta e conferencista (El Laberinto de la Soledad, El Arco y la Lira, El Mono Gramático, Los Hijos del Limo, Sor Juana Inés de la Cruz o las Trampas de la Fe). Alguns livros de poesia: Piedra de Sol, Salamandra, Blanco, Vuelta, Árbol Adentro.

sábado, 14 de agosto de 2010

A Palavra

A Palavra


Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar.



Que resumiria o mundo

e o substituiria.

Mais sol do que o sol,

dentro da qual vivêssemos

todos em comunhão,

mudos,

saboreando-a.



Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'

A Palavra

A Palavra


Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina

e a alegria aviva-se em redonda ressonância.

O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível

que reconhece e inventa a pluralidade delicada.

Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.



Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo

da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.

Ela aflui em círculos desagregando, construindo.

Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.

Sobre si enrola o anel nupcial do universo.



O gérmen amadurece no seu corpo nascente.

Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.

Move-se aqui e agora entre contornos vivos.

Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.

Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.



António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

Quanto Sinto, Penso

Quanto Sinto, Penso



Severo narro. Quanto sinto, penso.

Palavras são idéias.

Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,

Que é nosso, não do rio.

Assim quisesse o verso: meu e alheio

E por mim mesmo lido.



Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa


-

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Com Fúria e Raiva

Com Fúria e Raiva


Com fúria e raiva acuso o demagogo

E o seu capitalismo das palavras



Pois é preciso saber que a palavra é sagrada

Que de longe muito longe um povo a trouxe

E nela pôs sua alma confiada



De longe muito longe desde o início

O homem soube de si pela palavra

E nomeou a pedra a flor a água

E tudo emergiu porque ele disse



Com fúria e raiva acuso o demagogo

Que se promove à sombra da palavra

E da palavra faz poder e jogo

E transforma as palavras em moeda

Como se fez com o trigo e com a terra



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

As palavras - Saramago


As palavras e o silêncio.


As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas.

As palavras estão ausentes.

Algumas palavras sugam-nos, não nos largam...

As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências.

Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias.

E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato.

Há também o silêncio.

O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.

Mas só o trigo dá pão.

José Saramago
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Sobre a Palavra

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Sobre a Palavra


Com a palavra dirige-se o homem à Divindade ou aos deuses. Pede-se, suplica-se, agradece-se!
Com a palavra abençoa-se, amaldiçoa-se, satiriza-se, pragueja-se!
Com a palavra dominam-se as forças ocultas ou assenhoreia-se delas!
Com a palavra curam-se doenças desfazem-se os malefícios e as pragas!
Com a palavra sagram-se as coisas e evitam-se as profanas!
Com a palavra respeitam-se, veneram-se, divinizam-se homens, cidades e coisas!
Com a palavra predizem-se os fatos vindouros!
Com a palavra perdem-se ou deparam-se as coisas!
Com a palavra tem-se o mundo nas mãos.



 A magia da Palavra - R.F. Mansur Guérios

Festival da Palavra - parceria UNESP Assis e Poiesis