Programa do Festival

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Palavras de Pedro D'Arcádia Netto

Aurora

Nasce em mim

essa aurora para te amar

longamente

- uma aurora sempre jovem

que o dia não vencerá,

nem a noite,

Orvalho, sol e noite,

amalgamados, sempre aurora,

na glória tão grande de te amar!



Pedro D'Arcádia Netto



Razão

Amo as pessoas

precisamente porque elas findam.

Não pelo inferno

nem pelo paraíso:

amo as pessoas

precisamente porque elas findam.



Pedro D'Arcádia Netto





"... a vida é um

sopro divino

temporariamente

esquecido na terra."


Pedro D'Arcádia Netto




História da árvore em agosto

Vê como em agosto

são tenros os brotos amarelados

e como eles tecem a árvore.

Vê como o brando leque

dos galhos deita-se no ar,

com toda a confiança.

Vê:

Com todo o conflito de seus ramos,

ela é perfeita

e linda

e eterna

contra o céu de agosto.

Vê, amigo

Vê como ela é eterna.



Pedro D'Arcádia Netto

Palavras de Mário Faustino

VIDA TODA LINGUAGEM

Vida toda linguagem,

frase perfeita sempre, talvez verso,

geralmente sem qualquer adjetivo,

coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,

há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome

aqui, ali, assegurando a perfeição

eterna do período, talvez verso,

talvez interjetivo, verso, verso.

Vida toda linguagem,

feto sugando em língua compassiva

o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!

leite jorrado em fonte adolescente,

sêmen de homens maduros, verbo, verbo.

Vida toda linguagem,

bem o conhecem velhos que repetem,

contra negras janelas, cintilantes imagens

que lhes estrelam turvas trajetórias.

Vida toda linguagem --

como todos sabemos

conjugar esses verbos, nomear

esses nomes:

amar, fazer, destruir,

homem, mulher e besta, diabo e anjo

E deus talvez, e nada

Vida toda linguagem,

vida sempre perfeita,

imperfeitos somente os vocábulos mortos

com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-

[tra a chuva,

tenta fazê-la enterna - com se lhe faltasse

outra, imortal sintaxe

à vida que é perfeita

língua

eterna.



PRIMEIRO POEMA



Por que vos espantais se eu venho sobre as ondas?


Trago a paz e as distâncias vêm comigo

na boca tenho mundos e nos olhos palavras.

Ouvi-me.


Todas as coisas são palavras minhas:

a mais pura das nuvens

a mais pura que veio de longe e não se dissolveu

as colunas incolores além se levantando

quebradas luminosas líquidas colunas colunas

os cavalos que se empinam sobre a espuma

e o calmo silêncio povoando o mar.

Minhas palavras.

Antigas porém há pouco descobertas.

Lentas como o escurecer das nuvens refletidas

como o tremular tranqüilo da vaga adolescente.

Materiais límpidas palpáveis

frias e mornas coloridas de ondas e descendentes pássaros.

Resumidas numa única

impronunciável Palavra.

Mas eu não sou o Senhor

embora venham comigo a Música e o Poema.

Por que vos ajoelhais se eu vim por sobre as ondas

e só tenho palavras?

Ouvi a minha voz de anjo que acordou:


Sou Poeta.


CARPE DIEM



Que faço deste dia, que me adora?

Pegá-lo pela cauda, antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música, em palavra,

Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?

Força é guardá-lo em mim, que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva, feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já se sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.

Já nele a luz da lua – a morte – mora,

De traição foi feito: vai-se embora.)



SOLILÓQUIO

_ Tudo o que importa é ser maravilhoso.



A maravilha: o gesto da inocência.

E do aceno o milagre a renascença

de deslumbrados olhos infantil espaço

e primavera _ o homem volta ao homem;

o inefável gera enfim o mal sublime

no coração deserto; e da terra doença

a rosa azul desponta e levanto-me rei.

_ Eu mesmo sou o encantador do mundo!

Seres e estrelas brotam de meus lábios...

e morro deste belo sofrimento

de ser maravilhoso!



                           _ Ah, quem pudesse

gritar à noite e ao tempo essas palavras

e partir pelo vento semeando versos

e terminando a criação da terra...





FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora. E outros poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.200.

Palavras...

POEMA ÀS PALAVRAS


. Há sempre uma palavra dentro da palavra

um gesto por exemplo

ou o zumbir dum insecto a

levantar o vento morto


Traz uma mensagem fugidia uma essência

que luz ao ritmo do tumulto da claridade

só perceptível pelos reflexos da própria luz

transparente interior das coisas


A sua transcendência identifica o fogo

o perfil exterior e seus artifícios intemporais


E apenas se lê em sinais indicativos

de virtuosos alquimistas procurando o oiro

na flecha no círculo dum arco íris caindo

magnânimo sobre o cinzento da terra.

Vieira Calado

http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/2007/04/h-sempre-uma-palavra-dentro-da-palavra.html


A PALAVRA


a palavra em ângulo agudo

risco no ar

adaga

a descer sobre o homem

ferida à flor dos olhos.

voz letra

música

a palavra inevitável

II

a palavra a dizer(-se)

de algum lugar

ave a subir nas minhas mãos

a voar delas.

Silvia Chueire

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Palavras de Sophia de Mello-Breyner

Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes!



Sophia de Mello-Breyner




Poesia


Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,

Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.

No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua

E dos jardins, os gestos recebidos

E o tumulto dos gestos pressentidos

Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,

Não pelo meu rumor que só perdi,

Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei

E em cujo amor de amor me eternizei.




Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.





Os Poetas


Solitários pilares dos céus pesados,

Poetas nus em sangue, ó destroçados

Anunciadores do mundo

Que a presença das coisas devastou.

Gesto de forma em forma vagabundo

Que nunca num destino se acalmou.

Sophia de Mello Breyner Andresen


in Dia do Mar, 1947


No Poema

Transferir o quadro o muro a brisa

A flor o copo o brilho da madeira

E a fria e virgem limpidez da água

Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar de decadência morte e ruína

O instante real de aparição e de surpresa

Guardar num mundo claro

O gesto claro da mão tocando a mesa.

Sophia de Mello Breyner Andresen


in Livro Sexto, 1962





Arte Poética


A dicção não implica estar alegre ou triste

Mas dar minha voz à veemência das coisas

E fazer do mundo exterior substância da minha mente

Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta

Atenta para a caçada no quarto penumbroso

Sophia de Mello Breyner Andresen


in O Búzio de Cós, 1997

Palavras de Hilda Hilst

PÁSSARO-POESIA
Hilda Hilst

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia

Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível

Porque de barro e palha tem sido esta viagem

Que faço a sós comigo. Isenta de traçado

Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem

Hei de levar apenas a vertigem e a fé:

Para teu corpo de luz, dois fardos breves.

Deixarei palavras e cantigas. E movediças

Embaçadas vias de Ilusão.

Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti

Pássaro-Poesia

E a paisagem limite: o fosso, o extremo

A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.

No Amanhã.


..................................................
 
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.


Hilda Hilst

I

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.

Voz e vento apenas

Das coisas do lá fora

E sozinha supor

Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento

Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento

Meu ouvido escutaria

O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.

Porque é melhor sonhar tua rudeza

E sorver reconquista a cada noite

Pensando: amanhã sim, virá.

E o tempo de amanhã será riqueza:

A cada noite, eu Ariana, preparando

Aroma e corpo. E o verso a cada noite

Se fazendo de tua sábia ausência.

II

Porque tu sabes que é de poesia

Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,

Que a teu lado te amando,

Antes de ser mulher sou inteira poeta.

E que o teu corpo existe porque o meu

Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,

É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante

Quando amanhece e me dizes adeus.

III

A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra

Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo

Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta

E manda que eu te pergunte assim de frente:

À uma mulher que canta ensolarada

E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

IV

Porque te amo

Deverias ao menos te deter

Um instante

Como as pessoas fazem

Quando vêem a petúnia

Ou a chuva de granizo.

Porque te amo

Deveria a teus olhos parecer

Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso

Mas outra

Reverso de sua própria placidez

Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,

é que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente

E porisso talvez

Te aborreças de mim. (…)



…………………………………………………….


Dez chamamentos ao amigo


Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

(I)


[Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

Palavras de Gildes Bezerra

BATEIA


Façamos a experiência,

Tentados pela ciência

De garimpar a palavra.

Compensa a inexperiência

Quem sabe, pela insistência,

Que ganha o ouro que lavra.



SIGNIFICANTES E SIGNIFICADOS II

Enquanto

As cabeças se inclinam sobre os livros,

Como reverência ao saber,

Os corações,

Interligados pela sensibilidade,

Declinam os momentos de afeto

Entre palavras de convivência.

As vidas plenas

Transbordam a fertilidade da Razão

Sobre as páginas de jovens amanhãs.

Representam o signo

Da palavra Luta

Para viver a linguagem

Do vocábulo Paz.



DIÁRIO XXXVI

Leia

As palavras

Que falo.



DIÁRIO XLI

Ouça

As palavras

Que escrevo.



DIÁRIO LXVII

Não há o indizível

Para a sensibilidade.



DIÁRIO LXXIV

Os ouvidos ouvem as palavras faladas;

Os olhos lêem as palavras escritas.

E o coração

Ouve as palavras caladas

E lê as palavras não ditas.

sábado, 28 de agosto de 2010

ARTE POÉTICA - Jorge Luis Borges

ARTE POÉTICA


Tradução de Rolando Roque da Silva

Mirar o rio, que é de tempo e água,

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, sentir que a morte,

Que a nossa carne teme, é essa morte

De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo

Desses dias do homem, de seus anos,

E converter o ultraje desses anos

Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso

Um triste ouro, e assim é a poesia,

Que é imortal e pobre. A poesia

Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face

Nos observa do fundo de um espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao avistar sua Ítaca

Humilde e verde. A arte é essa Ítaca

De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável

Que passa e fica e que é cristal de um mesmo

Heráclito inconstante que é o mesmo

E é outro, como o rio interminável.





ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro río,

saber que nos perdemos como el río

y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño

que sueña no soñar y que la muerte

que teme nuestra carne es esa muerte

de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo

de los días del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal y pobre. La poesía

vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara

nos mira desde el fondo de un espejo;

el arte debe ser como ese espejo

que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

lloró de amor al divisar su Itaca

verde y humilde. El arte es esa Itaca

de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable

que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

y es otro, como el río interminable.



De El Hacedor (1960)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Palavras de Luiz Antônio de Figueiredo

Ninguém pode contar

a história da poesia

só quem tiver memória

da primeira palavra,

que foi sonho, magia,

emoção. A palavra

que se perdeu no tempo

anterior ao conceito,

agora reverbera

como sonho desfeito

em todas as palavras:

rosa, fogo, papel

onde a poesia se escreve,

água, a boca dos mortos

falando a vida breve,

um livro que esquecemos

de abrir, algum momento

de amantes (sem palavra)

quando vem a ilusão

de suspender o tempo,

poesia indo à procura

desse tempo perdido,

se desfazendo em música

de palavras, miragem

do primeiro sentido.


Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo


A noite se reparte em mais de mil


e uma noites. Cada sono

um sonho diferente,

a noite de quem fica,

a noite de quem parte,

a insônia do doente.

Não se reparte o amor,

o canto,

a amizade,

a morte.

Um de cada vez,

ofertam-se inteiros

a cada um.


Poemas do Tempo-Luiz Antonio de Figueiredo


Pousa, felicidade,

como a luz da manhã,

de leve, sem alarde.

Amanhã será tarde.

Agora, viva a breve

delicadeza

dessa fugacidade.



Poemas do Tempo

Luiz Antonio de Figueiredo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Palavras de Emilio Moura

Libertação


Sou um poeta quase místico:

A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,

não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,

mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;

não ouvir as palavras frias que mudam o destino,

ou que o fazem semelhante a um autômato;

e saber a toda hora,

saber sempre

que a vida é bela quando é um êxtase.




Canção


Viver não dói. O que dói

é a vida que se não vive.

Tanto mais bela sonhada,

quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói

é o tempo, essa força onírica

em que se criam os mitos

que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói

é essa estranha lucidez,

misto de fome e de sede

com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,

ferindo fundo, ferindo,

é a distância infinita

entre a vida que se pensa

e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.




 
Três caminhos
 
Percorri tantos caminhos,

tantos caminhos andei.

O primeiro era de nácar,

de rosa pura o segundo.

O terceiro era de nuvem,

no terceiro te encontrei.

O primeiro já trazia

teu nome brilhando no ar.

Não era nome de terra:

cantava coisas do mar.

Logo senti que o segundo

já era estrada de encantar.

Mas o terceiro, o terceiro

quantas voltas não foi dar!

Deixou meu corpo na terra,

meu coração no alto-mar.

Virou vento, virou bruma,

perdeu-se, rápido, no ar.



A fábrica do poeta



Fabrico uma esperança

como quem apaga

algo sujo num muro,

e ali, rápido, escreve:

Futuro.


Fabrico uma pureza

tão menina,

tão cristal e tão fonte

que, de repente,

É meu todo o horizonte.


Fabrico uma alegria

que é de ver as coisas

como se só agora

é que nascesse,

A aurora.


Fabrico uma certeza

exata

para cada instante.

A vida não está atrás,

Mas adiante.


Fabrico com o que tiro

de mim mesmo e do mundo

meu dia.

E ao que, em síntese, sou

Junto o que queria.


Fabrico uma hora densa,

como quem descobre.

Ah, quem diria

Que essa hora imensa

Já é poesia?


Emílio Moura




Ode ao primeiro poeta
-Comme lê monde était jeune,
et que la mort était loin!
   Georges Chennevière


Quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram, trêmulos, diante da planície imensa,

eu te vi erguendo a tua voz forte, límpida e viva.

Eras jovem e tinhas a alegria de quem está descobrindo o mundo.

Foi a tua palavra que modelou a primeira paisagem, deu ritmo aos ventos e [imaginou a beleza ingênua dos primeiros e únicos símbolos . [que se perpetuaram.

Eras criatura e criador.

Estavas no gesto maravilhado que armava as primeiras tendas e na mão

[ indecisa que traçava o desenho mágico dos caminhos

[que se improvisavam;

na imagem da vida em que se embebeu o primeiro surto livre do espírito;

estavas em ti mesmo e fora de ti,

quando os homens desceram, um dia, dos montes e se detiveram trêmulos,

diante da planície imensa...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Palavras...

A palavra é o meu domínio sobre o mundo


Clarice Lispector



Onde eu não estou, as palavras me acham.

Manoel de Barros



Palavras são um brinquedo que não fica velho. Quanto mais as crianças usam palavras, mais elas se renovam.

José Paulo Paes



Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.

Jorge Luis Borges

 
 
A Palavra


Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo

e o substituiria.

Mais sol do que o sol,

dentro da qual vivêssemos

todos em comunhão,

mudos,

saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'



"O poema é feito de palavras necessárias e insubstituíveis." (Octavio Paz)

Palavras de Murilo Mendes

É muito difícil esconder o amor


A poesia sopra onde quer.
 
 
 
Reflexão n°.1


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito.


Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito comprido.




O utopista

Ele acredita que o chão é duro

Que todos os homens estão presos

Que há limites para a poesia

Que não há sorrisos nas crianças

Nem amor nas mulheres

Que só de pão vive o homem

Que não há um outro mundo.



Exergo


Lacerado pelas palavras-bacantes

Visíveis tácteis audíveis

Orfeu

Impede mesmo assim sua diáspora

Mantendo-lhes o nervo & a ságoma.

Orfeu Orftu Orfele

Orfnós Orfvós Orfeles

In: Convergência. São Paulo, Duas Cidades, 1970.










A palavra nasce-me


fere-me

mata-me

coisa-me

ressuscita-me.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Palavras de Moacir Amâncio

Moacir Amâncio

[Ata]

E, como se tivesses diante de ti uma palheta cósmica,

organizarás o teu mundo de espectros e de filtros,

biblicamente instaurando o mito da criação no caos cotidiano.

Assim, o domingo já não será um impreciso dia

mas o branco em que inicias a semana.

O branco, senhora, a solicitude em pessoa.

A segunda-feira vacilará entre o amarelo e tons pastéis

dessa ordem inaugural.

Sem bruscas rotações, portanto, da dúvida ao egoísmo.

A terça-feira se tingirá de vermelho ou de laranja

conforme o grau de umidade dos teus labirintos.

A quarta mergulhará em marinho e preto

de onde emergirás um tanto confusa. Desgraça pouca é bobagem.

Na quinta viajarás repentina do rosa ao verde-

o desequilíbrio natural te faz bem e rir é sempre muito bom.

A sexta-feira, esta guardará o azul de sempre,

obrigando-te a dizer azul quando ias dizer surpresa.

Sábado, cansada de tantas cores,

descansarás na soma delas todas e te vestirás de sol.



* * *


MITOLÓGICO


ao tentar dizer

desdigo o não dito

na ausência de pernas

cavalgo

existo centauro

nem raro nem mito.


***

como o raio
abre rios no céu
lavras um campo avaro

o papel com sua escrita

colheita de relâmpagos.

***

Das palavras aéreas - Cecília Meireles

Das palavras aéreas - Cecília Meireles


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e se transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora...

e dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...

Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação, nem de hora...

- e estais no bico das penas,

- e estais na tinta que as molha,

- e estais nas mãos dos juízes,

- e sois o ferro que se arrocha,

- e sois o barco para o exílio,

- e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai palavras,

leis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra...

Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois agora?

-Acusações, sentinelas,

bacamarte, algemas, escolta;

- o olho ardente da perfídia,

a velar na noite morta;

- a umidade dos presídios,

- a solidão pavorosa;

- o duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

- e a sentença que caminha,

- e a esperança que não volta,

- e o coração que vacila,

- e o castigo que galopa...

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

- sois madeira que se corta,

- sois vinte degraus de escada,

- sois um pedaço de corda...

- Sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeira, tropa...

Ai, palavras, ai palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem...

- sois um homem que se enforca!


[Do Romanceiro da Inconfidência; Flor de Poemas, ed. Nova Fronteira]

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Octavio Paz

"A palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".



Octavio Paz

Vida

Vida


Por mais que se explique

Com subtis palavras

A vida: um mistério.
 
 
Antônio Lázaro de Almeida Prado

sábado, 21 de agosto de 2010

DESTINO DO POETA

DESTINO DO POETA




Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.

Deixa que eu me perca entre palavras,

deixa que eu seja o ar entre esses lábios,

um sopro erramundo sem contornos,

breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


(Trad. Haroldo de Campos)



Octavio Paz

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Palavra Mágica

A Palavra Mágica



Certa palavra dorme na sombra

de um livro raro.

Como desencantá-la?

É a senha da vida

a senha do mundo.

Vou procurá-la.



Vou procurá-la a vida inteira

no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,

não desanimo,

procuro sempre.



Procuro sempre, e minha procura

ficará sendo

minha palavra.



Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Catar feijão

Catar feijão




1.

Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelada, por chumbo seu verbo:

pois para catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.



2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:

o de que entre os grãos pesados entre

um grão qualquer, pedra ou indigesto,

um grão imastigável, de quebrar dente.

Certo não, quando ao catar palavras:

a pedra dá à frase seu grão mais vivo:

obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a como o risco.



João Cabral de Melo Neto

Festival da Palavra - parceria UNESP Assis e Poiesis